sábado, 17 de outubro de 2009

Machado de Assis - "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Cap. XXV "Na Tijuca")

Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. — “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” — Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura, — ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.

Um comentário:

  1. “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!”

    santa volúpia do aborrecimento!

    mi mama dice que quando uno esta enburrado, es mejor no incomodar, y dejar que la persona se desenburre solita.

    Quando nos encontramos no fundo do fundo do poço sem fundo, realmente é um pouco reconfortante saber que mais fundo que isso é impossível xD

    se a filosofia começa com a consciencia de que somos um ser-para-a-morte, será que podemos alcançar algum patamar mais baixo do que este?

    será que é pior se constatar alguém que "nasceu póstumo"?

    será brás cubas um destes homens seletos?

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